segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

RESENHA: ELYSIUM


Nota: 7,5

Elysium é um filme norte americano de ficção científica, lançado em 2013, dirigido por Neil Blomkamp, estrelado por Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Wagner Moura e Alice Braga.

Num futuro não tão distante (ano de 2.154), fugindo da poluição e da superpopulação, a casta mais abastada da população mundial vai morar numa comunidade fora da Terra, chamada Elysium. A Terra por sua vez está cada vez mais abandonada, repleta de periferias, violência e um sistema policial ocupado por robôs que agem de forma extremamente violenta e intolerante.
Bela porta de entrada de Wagner Moura para Hollywood

Da Terra é possível ver Elysium, assim como a Lua, porém maior que nosso satélite natural. Todos sonham com uma maneira de adentrar a comunidade, que possui condições de vida infinitamente melhores. No entanto, a passagem para a comunidade é caríssima e mesmo existindo diversas tentativas de invasão através da clandestinidade, a permanência no lugar por esses meios se mostra quase impossível, com as autoridades limando de volta qualquer um que tente invadir seu paraíso.

Dessa vez como vilão, Sharlto Copley
Max (Damon) trabalha numa indústria que explora seus funcionários e um dia no caminho do trabalho após tratar um policial robô com sarcasmo fratura o braço com uma cacetada, chegando ao hospital encontra Frey (Alice Braga), enfermeira, amiga de infância que ele não via há anos, os dois marcam um encontro. Porém Max sofre um acidente no seu trabalho e é exposto à radiação, diante a total indiferença de seus empregadores ele é liberado para ir pra casa, tendo somente mais alguns dias de vida.

Max, debilitado e desesperado, recorre a Spider (Moura) um hacker malucão que comanda um esquema de viagens ilegais para Elysium. A intenção de Max era ir à comunidade que possui um aparelho chamado cama de recuperação que cura qualquer doença em poucos segundos. Spider aceita dar a passagem à Max desde que ele o ajude com uma missão: transferir os dados da mente de um magnata para si próprio, a fim de ter acesso a senhas, logins e dados preciosos para poder e fortuna. É curioso notar que os pen drives da época são as próprias cabeças dos seres humanos, que carregam consigo as informações que desejam guardar. Max então implanta em suas costas uma espécie de armadura que o auxiliaria na missão.

Junto a uma equipe, Max consegue realizar a missão, mesmo aparentemente corrompendo os arquivos e matando o alvo em questão, que não por acaso era o dono da indústria em que ele trabalhava. Os dados do magnata eram por algum motivo de suma importância para os governantes de Elysium e Spider logo descobre que trata-se de toda configuração de acesso e controle da comunidade, podendo dar o poder a quem conseguisse acessar os arquivos de redefinir todo o esquema de ocupação e atendimento de Elysium. Logo a intenção de todos é ajudar quem mais necessitava na Terra.

Matt Damon como Max lutando pela vida
Mesmo conseguindo realizar a tarefa, Max perde sua equipe e fica bastante ferido, indo procurar a ajuda de Frey, que o leva pra casa e presta socorro ao amigo de infância. Ela desabafa que a filha está muito doente, estágio final de leucemia e precisa que Max a leve com ele para Elysium, Max se recusa e segue seu caminho até o laboratório de Spider, porém um agente inativo de Elysium que está na Terra, chamado Kruger (Copley) vai até a casa de Frey, a pedido da forte e impetuosa figura da secretária de defesa Jessica (Foster), e a rapta junto com sua filha.

Notando o valor do que carregava consigo e vendo que ele era quisto vivo, resolve negociar sua ida à Elysium em troca dos dados, porém lá chegando o agente Kruger se rebela contra os próprios governantes e resolve tomar para si os dados, a fim de se tornar o novo gestor Elysium, matando inclusive Jessica.

A ação toma conta do contexto, com Max vencendo o agente e se sacrificando, a fim de salvar sua amada e a filha dela e permitindo que Spider tomasse o controle do sistema de vez, redefinindo de imediato o sistema de acesso à Elysium e seu excelente atendimento médico.

Considerações Finais

Dos blockbuster que assisti em 2013, Elysium é certamente o melhor. Diverte ao ponto certo, não é arrastado como os filmes que a crítica adora exaltar, possui ótimo elenco dando espaço aos talentosos brasileiros e o que considero mais importante, o filme consegue emplacar algumas metáforas sociais com muita competência.

Afinal, os pobres mirando alcançar um ideal de status aparentemente inatingível; as viagens clandestinas; os serviços de qualidade somente pra quem pode pagar; os ricos fazendo de tudo para não ter de conviver com pobres. É tudo exatamente igual ao que acontece na realidade, com condomínios fechados, sistema de saúde particular ou até mesmo um país de primeiro mundo.

Outro grande filme do diretor Neil Blomkamp, o mesmo de Distrito 9, que consegue mais uma vez dosar crítica social e entretenimento, com doses potentes de ação e pirotecnia e conteúdo embutido neste belo pacote. Quem dera todos diretores fossem assim.


David Oaski





sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

RESENHA: BOTINADA: A ORIGEM DO PUNK NO BRASIL


Nota: 7,5

Botinada: A Origem do Punk no Brasil é um documentário lançado no ano de 2006, dirigido pelo grande jornalista musical Gastão Moreira, que visa elucidar o surgimento da cultura punk rock no Brasil no final dos anos 70 e começo dos anos 80, seu desenvolvimento e seu legado nos tempos atuais.

Através de entrevistas, matérias da época (jornais, revistas, rádio e TV) e fotos o documentário traça de forma fidedigna o desenvolvimento do punk na cidade de São Paulo. São diversos entrevistados, como Redson (Cólera), Clemente (Inocentes), João Gordo (Ratos de Porão), Fábio (Olho Seco), Kid Vinil, Supla, entre outros membros importantes da cena.

Diante de toda opressão que a sociedade vivia em tempos de ditadura militar, a geração jovem crescia com desejo de mudança. De mudança no visual careta da época, mudança no comportamento passivo, mudança no conformismo e o canal encontrado para dar vazão a todos esses anseios foi o punk rock.

Restos de Nada, com Clemente na formação
Tudo começou no final da década de 70, com o rock progressivo em baixa e bandas consagradas com performances cada vez mais egocêntricas, além da consolidação da discoteca. Surgiram então nos Estados Unidos e Inglaterra bandas na contramão dessa porcaria toda, eram nomes como The Clash, Ramones, Sex Pistols, Stooges, Danmed, MC5, The Jam, entre outras. Apesar de muitos dos que vieram a brilhar na efervescente cena já terem bandas, o norte para estética visual e sonora seria definido através do contato com estas bandas.

A primeira polêmica apresentada pelo documentário tem motivo no local de surgimento do movimento punk no Brasil, com os brasilienses e paulistas reivindicando cada um para si o mérito. Os brasilienses dizem que os discos chegaram primeiro lá e os paulistas afirmam que não é porque os discos chegaram que eles eram punks, além do que eram filhinhos de diplomatas, o que banaliza um pouco a vocação punk dos rebentos da capital federal.
As publicações não entendiam bem qual era a do movimetnos

Através de revistas e publicações, na maioria das vezes com informações desencontradas, a molecada foi tendo contato com os punks britânicos, porém quando questionados nas matérias de Tv da época, os próprios punks não sabiam ao certo explicar sua ideologia. Tirando o visual calcado pelas jaquetas de couro, coturnos, braceletes, bottoms e os cabelos raspados ou espetados ou moicanos, o conhecimento do movimento em si era muito raso.

Tudo era muito amador e os poucos garotos que conseguiam ter acesso aos LPs das bandas, emprestavam uns para os outros, proliferando as gravações de fitas K7. As fitas K7, inclusive, eram a trilha das baladas punk da época, que tocavam as bandas nas pistas dessa forma extremamente precária. Havia também o começo da divulgação do som punk no rádio, num programa comandado por Kid Vinil, a mesma iniciativa era feita por Marcelo Nova numa rádio em Salvador.
Apresentação caótica do Olho Seco

As primeiras bandas a serem consideradas punk no Brasil vieram no final da década de 70 e foram Joelho de Porco e Banda do Lixo, mas na efervescência do movimento vieram Restos de Nada, Ai-5, Cólera e Condutores de Cadáver. Depois com o final de algumas dessas, surgiram outras bandas, como Ratos de Porão, Inocentes, Olho Seco, Ulster, Garotos Podres, entre outras.

Vistos pela sociedade e por grande parte da imprensa como violentos, vândalos e arruaceiros, os punks paulistas não faziam muita questão de mudar essa impressão, pois formaram diversas gangues, que brigavam entre si e havia também uma enorme rivalidade entre os punks paulistas e os punks do ABC, chegando a gerar morte e incidentes graves como bombas caseiras sendo explodidas no meio de apresentações. Todo esse caos impediu muitas vezes que o movimento se consolidasse e ganhasse mais espaço.

Toda a garra do Cólera
Quando as principais referências do movimento se entenderam e decidiram buscar a paz entre os membros as coisas começaram a fluir, com apresentações maiores e a realização do festival clássico Começo do Fim do Mundo, que uniu diversas bandas no Sesc, num festival bem organizado, mas que terminou em briga, porém desta vez nada grave.

Apesar de nenhuma banda ter atingido grande sucesso comercial, somente algumas poucas tem status cult, o movimento punk abriu caminho para todo rock mainstream que viria a seguir com bandas como Ira!, Titãs e Ultraje a Rigor. Isso sem falar na importância histórica do movimento, que sem apoio de ninguém, se desenvolveu às próprias custas em meio a porradas de todo lado, e conseguiu se firmar durante alguns anos levando ao pé da letra a cultura do “do it yourself”, batalhando no dia-a-dia, prezando pela diversão e liberdade de expressão.

Mesmo com toda descrença carregada na mensagem do punk rock, o documentário mostra que eles deixaram um legado de motivação, de que pra mudar qualquer coisa que seja, você só precisa de uma coisa: disposição.


David Oaski




quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

OS MELHORES DISCOS DE 2013 - IDEOLOGIA ROCK


Como de costume, no mês de Dezembro diversos portais, sites especializados e blogs ao redor do mundo começam a publicar as tradicionais listas de melhores discos lançados no ano. Aqui no Ideologia não é diferente, começamos com a listagem no ano passado e esse ano vamos para a segunda lista.

2013 foi outro ótimo ano para a música mundial, tivemos grandes lançamentos de bandas que já eram aguardadas, gratas surpresas e ótima movimentação de festivais. Tivemos novas edições de grandes festivais, como o Rock In Rio, que possui maior atenção da mídia e reforça o nome dos dinossauros como Metallica, Iron Maiden e Bon Jovi, mas também ‘apresenta’ ao público gente não tão nova, mas não tão reconhecida no país, como John Mayer e Muse. O grande destaque do festival foi o show de Bruce Springsteen que deu uma aula de rock e respeito aos seus fãs, sendo sua apresentação no festival e no Espaço das Américas em São Paulo, os grandes shows do país no ano.

O Lollapalooza também teve mais uma edição com destaque para os shows de Queens of the Stone Age, The Killers e Pearl Jam (que tive o prazer de testemunhar em loco), com estrutura ainda questionável o festival parece ter fixado residência no Brasil, já tendo confirmado a edição de 2014.

Claro que com a falta de tempo e correria do dia-a-dia não chegamos nem perto de ouvir tudo que temos vontade, mas através dessas listas podemos ter acesso a bandas que nunca saberíamos existir e até mesmo lançamentos que por um ou outro motivo deixamos passar batido.

Tenho observado que essas listas se assemelham a relação do técnico com uma seleção de futebol, explico: Nem sempre entram os melhores, mas sim os preferidos do treinador, que tem seus gostos pessoais e nem sempre consegue assistir a todos os jogadores que gostaria.

Bom, chega de enrolação, aí vai a minha lista:




Franz Ferdinand – Right Thoughts, Right Words, Right Action
Nunca botei muita fé no Franz Ferdinand, achava uma banda legalzinha, de um ou outro single bacana, mas nada além disso. Porém quando ouvi “Right Thoughts...” fui obrigado a mudar meus conceitos. Os caras fizeram um disco certeiro, com acenos ao pop e ao rock, com belas melodias (na sua maioria dançantes) com a pegada sarcástica típica das composições dos escoceses. Eu poderia dar uma de cool e escolher qualquer outro disco como disco do ano, mas a verdade que o álbum que mais gostei de ouvir em 2013 foi esse.





Daft Punk – Random Access Memories
Música pop de altíssima qualidade, o Daft Punk soa genial nesse álbum, já candidato a clássico. A dupla conseguiu juntar seus já tradicionais elementos eletrônicos à melodias pop, nitidamente inspiradas na disco music, conseguindo soar de forma mais orgânica, algo quase inimaginável para um artista rotulado como música eletrônica. É talvez o melhor disco pop dos anos 2000. Impossível não viciar em “Get Lucky” e “Loose Yourself to Dance”.



Vespas Mandarinas – Animal Nacional
A muito tempo não se via uma banda de rock nacional sem medo de soar pop e radiofônica como o Vespas Mandarinas. A banda buscou referências do próprio rock nacional dos anos oitenta e noventa e gravou um puta disco, cheio de identidade e composições interessantes. Se houvesse mais uma ou duas bandas com a disposição e talento das Vespas talvez o rock não tivesse cada vez mais perdendo espaço pra outros estilos no nosso país.



Pearl Jam – Lightning Bolt
Apesar de veteranos, os caras não demonstraram nenhum sinal de cansaço nesse disco cheio de energia e influências diversas, flertando com blues, folk e country, mas sempre com a veia roqueira aflorada. “Gettaway” e “Lightning Bolt” são duas das melhores canções que a banda já gravou.



Queens Of The Stone Age - ...Like Clockwork
Josh Homme é um dos caras mais talentosos e originais do rock atual e junto com sua banda e diversos convidados (entre eles Alex Turner, Dave Grohl e Elton John) entregou outra joia na já brilhante discografia da banda. Baseado numa experiência de quase morte sofrida por Josh, as composições são mais densas e adultas, porém sem deixar de lado a pegada stoner como nas excelentes “If I Had A Tail” e “I Sat By The Ocean”.



David Bowie – The Next Day
O gênio do pop devia um grande álbum às novas gerações. Após “The Next Day” não deve mais. Grande disco, que esbanja simplicidade, dando atenção a cada detalhe da melodia, transformando canções pop em verdadeiras obras de arte, exemplo claro disso é o single "The Stars (Are Out Tonight)". Coisa de quem sabe das coisas!






Paul McCartney – New
Outro gênio da música pop que assim como David Bowie lançou seu álbum sem fazer muito alarde e entregou um álbum sensacional. Com canções pop sob medida, satisfazendo desde os órfãos dos Beatles até fãs da carreira solo do cara. Mostrou também que está antenado, no auge dos 71 anos, trazendo novas influências, como eletrônico e indie rock. Valeu Paul!!!



Arctic Monkeys – AM
Eles apareceram no começo dos anos 2000 como garotos britânicos espinhudos queridinhos da mídia especializada, desbancando recordes de dinossauros do porte do Oasis, porém mostraram que o amadurecimento fez muito bem ao som da banda. Com um som mais potente, ora denso, ora enérgico, os caras chegam a flertar com stoner rock. É a afirmação da banda como um dos grandes nomes do rock atual, ouça “Why’d You Only Call Me When You’re High” e confirme.



The Winery Dogs – The Winery Dogs
Hard rock do bom. Dosando peso e melodia o supergrupo encabeçado por Ritchie Kotzen mostrou que tem bala na agulha pra ir além de um simples projeto paralelo. Cruzamento entre rock clássico e contemporâneo na medida certa.



Kings Of Leon – Mechanical Bull
Eles surgiram como cowboys indies e viraram os queridinhos das adolescentes. Ao que parece eles conseguiram fundir os dois momentos da carreira, lançando um álbum consistente, com southern rock, country, rock de arena e baladas.

O que achou da lista? Concorda? Discorda? Ouviu coisas mais alternativas? Comenta aí, ficarei atento às dicas.


David Oaski




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A TAL CENA GRUNGE



Costumo dizer que nem tudo de melhor da história do rock n’ roll veio da década de 70. É bem verdade que grande parte das bandas que forjaram o hard rock como ele viria a ser feito no decorrer do tempo vieram dessa década, mas é inegável a quantidade de boas bandas surgidas nos anos 80, que vieram a explodir nos anos 90.

Em meio a bandas como Red Hot Chili Peppers, Faith No More, Guns N’ Roses, Metallica e R.E.M. surgia uma geração de garotos entediados, oriundos da chuvosa Seattle, nos Estados Unidos. De lá veio a maior remessa de bandas vindas do mesmo local num curto espaço de tempo, num movimento que ficaria conhecido como grunge. Dos embriões Mother Love Bone, Green River e Mudhoney aos consagrados Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden, isso sem contar outras bandas que foram diretamente influenciadas por estas, tais como os californianos do Stone Temple Pilots, os australianos do Silverchair, os ingleses do Bush, entre muitos outros.
Os primórdios das bandas de Seattle: Green River

O que acho curioso é que a tal cena grunge – rótulo esse rejeitado pela maioria das bandas à época – possui difícil identificação sonora, ou seja, quais são as semelhanças que tornaram o surgimento dessas bandas um movimento, além da óbvia cidade natal?

As semelhanças entre as bandas grunge são genéricas, afinal guitarras distorcidas e letras melancólicas não são exclusividade da turma de Seattle. Esteticamente o estilo dos integrantes das bandas realmente se assemelhava, com as clássicas camisas de flanela xadrez, jeans rasgado e cavanhaques de bode, mas com relação ao som cada uma das bandas possuía características marcantes.

A melodia e os grooves do Soundgarden
O Alice In Chains era talvez a banda que mais se aproximava do heavy metal, com riffs matadores do excelente guitarrista Jerry Cantrell que desenvolvia melodias complexas que se encaixavam feito luvas nos vocais pesados e dramáticos de Layne Staley; já  o Soundgarden também flertou com o peso do metal no começo, seguindo um caminho mais alternativo, beirando o pop no seu hit “Black Hole Sun”, revelando um dos melhores cantores da história do rock n’ roll: Chris Cornell; o Pearl Jam sempre foi uma banda de hard rock típica, porém longe da estética glam da década anterior, com dois guitarristas, muitos solos, refrãos marcantes e os vocais de Eddie Vedder que influenciariam toda a geração que viria a seguir; a banda que virou mito após a morte de seu vocalista, Kurt Cobain, o Nirvana teve suas raízes no rock underground americano, mas com a pitada certa de pop, que transformou o segundo disco dos caras, “Nevermind”, num sucesso mundial inesperado.

O peso e melancolia do Alice In Chains
É difícil identificar o que forma um movimento, mas algumas características comuns no som das bandas costuma se destacar, como por exemplo no punk a velocidade das melodias, poucos acordes e simplicidade; no metal, a virtuose, as melodias trabalhadas e a agressividade; no progressivo a complexidade, longas melodias e alta parafernalha. Enfim, com o grunge essa distinção parece ser mais difícil, sem diminuir de forma nenhuma o brilhantismo de todas as bandas consideradas do movimento.

Temo que com esse empacotamento das bandas no rótulo do grunge, elas percam o devido reconhecimento histórico que merecem, pois nenhuma das bandas citadas pode ser diminuída por um banner que nunca quiseram carregar. Essa geração é das mais brilhantes do rock e influenciou outra porrada de gente disposta a sair da mesmice e fazer barulho.

O mundo precisa reverenciar e muito as bandas de rock dos anos 90, independente de serem grunge ou não, pois tiraram o rock da inércia e papagaiada dos anos 80 e se tornaram relevantes, cada qual com sua própria identidade sonora.


David Oaski




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

METAMORFOSE AMBULANTE


Coerência. Taí um negócio complicado. Complicado e até certo ponto desnecessário, pois a linha que separa a coerência da arrogância e do orgulho exacerbado é bem tênue.

Já disse o poeta Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Essa frase é sensacional e tenho ela como mantra. 

Busco não me apegar a ideais, opiniões ou conceitos, nesse momento da minha vida penso de certa forma sobre variados assuntos, porém cinco anos atrás via o mundo com olhos totalmente diferentes e tenho certeza que daqui cinco anos verei as coisas de um novo modo.

Todos seres humanos estão mudando a cada dia, pra pior ou pra melhor, evoluindo ou regredindo, mas sempre em rotatividade. Claro que existem toupeiras que preferem morrer abraçadas a opiniões que carregam do berço sem ao menos experimentar ver o mundo com outros olhos, parecem temer ir contra si próprio, é de se lamentar o quanto de aprendizagem certas pessoas deixam de ter por puro orgulho.

Se dou uma opinião num determinado momento e venho a pensar diferente um tempo depois só demonstra que repensei, olhei de outro modo, modifiquei meus conceitos e revi minhas opiniões e tenho certeza de que isso é saudável.

Óbvio que não vou mudar meus princípios, minhas fundações, mas estou aqui pra aprender, pra evoluir, pra mudar.

Não se apegue, permita-se evoluir e viver plenamente.



David Oaski  

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

PENSO...


Barulho de chuva lá fora, minhas costas doem. Ouço o barulho do ventilador e desatino a pensar. De um instante para outro, num estalo, vou da inércia à inquietude semelhante à bateria de uma escola de samba. Pensamentos desconexos, coisas boas, coisas ruins. Talvez seja o cansaço da noite passada mal dormida.

Penso em ouvir música, não como se ouve atualmente, mas como nossos pais ouviam, parar pra curtir o que emana das caixas de som, pensando que aqueles acordes vão ressoar por toda galáxia para sempre. Penso também em descansar, dormir um pouco mais pra talvez ter dias mais dignos. Penso no tanto de dias comuns que venho tendo, em comparação com os especiais, a maioria é esmagadora.

Penso em admitir minhas fraquezas e ao mesmo tempo filtrar todo meu temperamento e inconformidade em agressividade. Penso em mudar a forma com que trato quem está ao meu redor, se estou dando a eles o máximo que posso.

Penso no quanto o tempo está passando rápido e como estou parado numa bolha claustrofóbica e esquizofrênica que na maioria das vezes faz sentir-me preso e incapaz.
Penso que está tudo bem e não tenho motivo pra me preocupar tanto.

Penso em muitas coisas, boas e ruins, a cabeça vai longe e na maioria das vezes joga contra.

Às vezes você só gostaria de parar de pensar...



David Oaski

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O "PUNK" DE BRASÍLIA


Primeiramente preciso deixar claro que adoro as bandas oriundas da capital federal Brasília. Ouvi e ouço muito Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Além de conhecer a história do embrião de duas dessas bandas, o Aborto Elétrico, banda que era composta pelos irmão que fundariam o Capital, Fê e Flávio Lemos mais Renato Russo, o carismático e controverso líder da Legião Urbana. Vale lembrar também que os integrantes dos Paralamas do Sucesso também cresceram e se conheceram na terra que abriga nossos políticos, apesar de terem formado a banda e se consolidado no Rio de Janeiro.

O fato é que sempre me incomoda a associação dessas bandas ao movimento punk. Eles não eram punks, nem no som, nem na atitude, é preciso deixar isso claro. O movimento punk surgido no final dos anos 70 na Inglaterra com o The Clash e os Sex Pistols e nos Estados Unidos com o Ramones sempre se caracterizou por ser formado por jovens de origem humilde, da classe operária britânica e norte americana, executando um som cru, direto, sem fírulas, com letras que tratavam de todos os temas, mas principalmente das mazelas da sociedade. Tudo isso na contramão do rock progressivo que reinava as paradas da época, com suas melodias complexas e canções longas.
Capital Inicial nos anos 80 - mais próximo da New Wave

O máximo que se pode dizer é que as bandas do rock de Brasília foram influenciadas pelo punk rock, assim como quase todas outras bandas surgidas desde os anos 80. As temáticas de muitas das letras das bandas brasilienses citadas realmente tinha cunho social e político, mas isso não faz deles punks.

Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial é um dos que mais se refere ao movimento como punk de Brasília, porém sabe-se que ele e a maioria dos outros membros da banda tem origem de classe média alta, filhos de figurões como diplomatas, políticos e magistrados, tendo passado boa parte da infância e adolescência em outros países. Até que ponto eles realmente sofreram as mazelas da sociedade na época?

É preciso deixar claro que não quero aqui impor um debate classicista, afinal ninguém tem culpa de ter a origem que tem, tampouco podem deixar de protestar por serem de famílias abastadas, mas também é fato que eles não eram os rebeldes porra loca que pregam nas entrevistas e documentários sobre a época.

Inocentes, verdadeiro representante do punk brasileiro
Com relação às melodias nem se fala, a banda que mais se aproximava da crueza do punk era o Plebe Rude, já os outros se aproximam muito mais da new wave ou do pós punk que do punk propriamente dito.

Punk nacional de verdade era o paulista, com bandas como Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera, Inocentes, entre outras. Essas sim têm um som sujo, veloz, cru e agressivo, com letras honestas e com integrantes em sua maioria oriundos das periferias da cidade.

A questão aqui não é gosto pessoal, particularmente até prefiro as bandas brasilienses, mas numa contextualização histórica, o punk nacional deve ser lembrado pelas bandas que realmente eram fiéis ao movimento original. Fico imaginando os caras do The Clash vendo os “punks” de Brasília, eles iriam se mijar de rir.

Do it yourself.



David Oaski


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

RESENHA: LIGHTNING BOLT - PEARL JAM


Nota: 8,5

O Pearl Jam já é uma banda clássica de rock. Com o distanciamento histórico de 22 anos do petardo “Ten”, de 1991 já é possível fazer essa afirmação com segurança.

A banda, que foi um dos pilares do movimento grunge, construiu ao longo dos anos uma discografia sólida e repleta de talento, sempre com a veia roqueira aflorada, mas se permitindo flertar com folk, blues e o pop.

Outros fatores fazem com que o Eddie Vedder, Stone Gosard, Jeff Amment, Mike Mcready e Matt Cameron formem uma das bandas mais respeitáveis do rock atual, como a eterna briga com a Ticket Master pelo valor abusivo cobrado pelos ingressos dos grandes shows; a variedade do setlist nas apresentações da banda é invejável, longe da preguiça e obviedade de outras bandas; além disso, a banda sempre buscou caminhar com suas próprias pernas, não se dobrando à exigências de gravadoras, rádios, Mtv e todos outros dinossauros que comandam o show business.

Com o lançamento de “Lightning Bolt”, décimo álbum da banda cerca de um mês atrás, os norte americanos de Seattle mostram que seguem afiados nas composições, entrosados como banda e que são sim relevantes e importantes no rock atual.

23 anos de estrada e energia de sobra
Há um pouco de tudo que o Pearl Jam já fez de melhor ao longo da carreira, com canções rock típicas dos álbuns recentes da banda, com boas linhas de guitarra e refrãos marcantes, abrindo com classe com a vigorosa “Gettaway”, um rockão pra levantar defunto, com vocais impecáveis de Vedder e a banda dando show na melodia. Potencial de single. Ainda nessa categoria estão “My Father’s Son”, outra ótima letra, com destaque para linha de baixo de Jeff Amment numa canção robusta, com variação no andamento em determinado momento, voltando ao tom raivoso noutros; e “Lightning Bolt”, a faixa título, inicia com rápidas linhas de guitarras e vocais e vai encorpando, com direito a um refrão delicioso e ótimo solo de guitarra.

Outra característica marcante no som da banda são as baladas e desta vez os destaques são a belíssima “Sirens” e “Sleeping By Myself”. Ambas possuem melodias delicadas, sendo que a primeira tem uma letra melancólica que trata de um desamor com piano, violões e suaves linhas de guitarra, com um belo solo, já a segunda é tão folk que parece que Eddie Vedder está tocando na varanda de uma fazenda, com violão e guitarra entrelaçados formando uma linda e singela canção.

A agressividade quase punk de “Mind Your Manners”, que possui letra com mensagens políticas e critica ao modo de vida americano contrasta com o intimismo de faixas como “Yellow Moon” e “Future Days” que lembram trabalhos solos de Vedder, com melodias mais introspectivas.

Arte para cada faixa do álbum
“Swallowed Whole” tem passagens de folk, vira rock, volta a ser folk e assim vai até o final, com melodia cativante e outro bom solo de guitarra. Já “Let The Records Play” é o toque de blues do álbum, num som que me remete a algo como o Black Keys, só que mais pesado, tem talvez o melhor solo de guitarra do álbum. Há espaço ainda para a densidade de “Pendulum”, arrastada e soturna possui uma beleza fúnebre.

Diferente de tudo que a banda já fez até hoje, “Infalible” soa como uma marcha com pitada folk. Somam à melodia piano, coros, castanholas e instrumentos de percussão, música típica de uma banda que não se acomoda nem se apega a formulas manjadas. O resultado é ótimo.

Quem ouvir “Lightning Bolt” esperando um arremedo de “Ten” ou “Vs” certamente sairá decepcionado, pois ao contrário de outras bandas o Pearl Jam se permitiu evoluir, mesmo não se distanciando do ritmo fundamental de sua música, o rock n’ roll. Se pararmos pra pensar friamente quais bandas ainda entregam ao seu público um ótimo disco de rock, sem pressão ou pretensão? São poucas.

O que os caras do Pearl Jam querem é curtir um som, tocar um rock aqui, um folk ali, uma pitada de blues acolá e apresentar um dos melhores shows da atualidade. É assim, dessa forma que eles entregaram um dos melhores disco do ano.





David Oaski

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O QUE DE MELHOR ROLOU NA MÚSICA EM 2013 (ATÉ AGORA)

2013 vem sendo mais um grande ano da música e o Ideologia Rock organiza pra você que anda meio desligado das atualidades sonoras, um apanhado do que de melhor ouvimos no decorrer do ano:

David Bowie, o camaleão do rock gravou uma jóia pop chamada "Next Year" e essa canção ficará marcada na discografia do cara:




Essa canção sensacional faz parte da fase mais madura do Queens of the Stone Age. Dê o play e vicie...



Grata surpresa do rock nacional, a banda paulista Vespas Mandarinas:




Apesar do álbum "Hail to the King" ser um pouco irregular, essa é mais uma bela balada dos contestados caras do metalcore californiano:



Os outrora espinhudos do Arctic Monkeys se tornam aos poucos uma das grandes bandas de rock do cenário atual...



Uma das melhores músicas do melhor álbum do ano até aqui. Os escoceses do Franz Ferdinand capricharam:



Linda canção do Kings of Leon!!!



O Pearl Jam já é um clássico e não se fala mais nisso...



Sonzeira do Daft Punk!



O pop envolvente e cada vez mais sofisticado do Justin Timberlake...



Outro dinossauro do rock que lançou um disco irregular, mas essa música é realmente uma pedrada...



Supergrupo encabeçado por Richtie Kotzen, muito foda!


Se você lembra de mais algum som que marcou o ano até aqui comenta aí...


David Oaski




segunda-feira, 28 de outubro de 2013

TUDO ERA MAIS LEGAL


Chame de memória afetiva, de saudosismo, de apego ao passado ou até mesmo ranzinza, mas se compararmos o mundo atual ao de 15, 20 anos atrás, veremos que tudo era mais legal.

Não sou nenhum ancião, nasci em 1988, tendo vivido a adolescência do final dos anos 90 ao começo dos anos 2000, mas lembro o suficiente e leio o suficiente sobre a época para saber que tudo está mais chato, entediante e efêmero.

Até a disseminação dos computadores e da Internet no começo dos anos 2000, o comportamento humano era totalmente diferente e a história ainda não teve distanciamento suficiente para notarmos o quão drásticas são as mudanças. Basta analisarmos como as pessoas ouviam músicas, compartilhavam informações, assistiam filmes e, principalmente, interagiam entre si que veremos o quanto são substanciais as alterações nos comportamentos dos indivíduos nessa nova sociedade em que vivemos.

Até duas décadas atrás o único jeito de ouvir um disco de um artista que você admirasse era comprando o LP ou K7, ou ainda tentando caçar um ou outro som na rádio e gravá-lo. Além disso, as pessoas paravam para ouvir música, esse era o programa principal, chegando a reunir galeras em torno de uma audição. Hoje em dia, ouvir um disco é uma atitude totalmente banal, executada enquanto se está em redes sociais ou na academia ou no serviço, mas nunca realmente prestando atenção na arte que invade seus ouvidos. Toda essa trivialidade faz com que cada vez mais artistas de qualidade duvidosa ganhem status de astros, sem contar o fato de que a qualidade dos arquivos comprimidos em MP3 é pra lá de questionável, tendo na maioria das vezes perca notável na qualidade da reprodução da música.

Diante da facilidade de enviar um e-mail, seja pelo computador ou pelo celular, muitos se esquecem de que a única forma de se comunicar com parentes distantes era através de caras ligações interurbanas ou cartas. O hábito de escrever cartas era dos mais prazerosos que existiam e a ansiedade de aguardar a resposta também valia a pena. Tudo isso longe da frieza proporcionada pelos correios eletrônicos.

Outro exemplo claro é a forma como as pessoas assistem filmes hoje em dia, mal e porcamente através de downloads de péssima qualidade, por streaming online travando a cada dois segundos e comprando de baciada de ambulantes em que os DVDs mal leem os discos. Até algum tempo atrás para ver um bom filme, as pessoas alimentavam o habito de ir ao cinema (que ainda existe, é claro) ou iam às locadoras, rodear os corredores, ler as capinhas, entrar na sessão de pornô. Toda essa porcaria pirata e a acomodação dos seus donos acabou com o mercado de locadoras.

Tudo isso é motivo de saudade, mas o principal definitivamente é a forma como as pessoas interagem hoje em dia. Cada vez mais distantes e frias, priorizando o contato via Internet ao cara a cara, com preocupação em tirar fotos o tempo todo para mostrar aos amigos algo que nem está sentindo tanto prazer em fazer, por pura osmose. Nas gerações passadas, os casais (quando saudáveis) chegavam em casa à noite e conversavam sobre seus dias, os adolescentes formavam rodinhas em condomínios e na rua, além de brincar o dia todo nesses mesmos locais. As pessoas compartilhavam histórias olhando nos olhos um do outro, isso não tem Internet que pague.

É claro que não sou louco nem cego de não reconhecer os benefícios da Internet, que diminuiu fronteiras, integrou o mundo e facilitou infinitamente o acesso à informação, porém mesmo com toda essa facilidade as pessoas cada vez mais adotam um comportamento alienado, com pouco ou nenhum sistema de filtragem de informação, de gostos e atitudes.

O avanço mais considerável que o Brasil teve nos anos recentes foi no âmbito econômico, de forma que o cidadão médio e até de baixa renda tem maior poderio econômico, mas isso também trouxe uma onda de consumismo e endividamento, além do que não trouxe consigo avanços em outras áreas de suma importância do país, como saúde, segurança e educação.

O fato é que vemos cada vez menos artistas criativos, pois os poucos que existem sobrevivem em pequenos nichos, e cada vez mais gente se sentindo sufocada e angustiada num mundo cada vez mais esmagado pela tecnologia que oprime qualquer um que saia da linha de mediocridade que o sistema impõe como certo.

As relações humanas ficaram pra trás, estamos todos virando robôs.


David Oaski





quarta-feira, 23 de outubro de 2013

OS DOIS LADOS DO PROCURE SABER


Tudo começou quando um grupo de celebrados artistas da MPB, tais como Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, anunciou que estava formando um grupo intitulado Procure Saber, em que eles discutiriam entre outras coisas, a proibição de publicação de biografias sem autorização prévia do biografado. Ou seja, qualquer um que resolva relatar através de livro a vida de um indivíduo terá que obter o aval do mesmo para publicar a obra.

De imediato, a mídia através dos jornalistas, colunistas e blogueiros se manifestou totalmente contra a ação dos artistas, alegando se tratar de uma ação contra o direito à liberdade de expressão. De bate pronto, através de Paula Lavigne, empresária que gere a carreira de diversos artistas brasileiros, inclusive seu ex-marido Caetano Veloso, o movimento rebateu afirmando que antes da liberdade de expressão está o direito à privacidade, daí se sucede um debate onde não há meio termo, ou se é radicalmente contra os artistas ou contra os biógrafos.

Paula Lavigne - testa de ferro do movimento
É realmente surpreendente ver gente do naipe de Caetano Veloso e Gilberto Gil, que sentiram na pele os efeitos da ditadura apoiarem uma causa que remete à censura, porém consigo entender o lado dos artistas quando me coloco no lugar deles. Creio que ninguém em sã consciência gostaria que fosse publicada uma biografia sua em que diversos de seus podres do passado são contados sem dó nem piedade. Além disso, não são poucos os casos em que maus profissionais do jornalismo / literatura se utilizam de boatos, fofocas e mentiras como fonte de informação sem nenhum tipo de checagem ou postura profissional.

Os jornalistas e biógrafos rebatem dizendo que uma iniciativa do tipo desta apoiada pelo Procure Saber é muito perigosa, pois pode gerar um mercado editorial repleto de biografias ‘chapa branca’, sem nenhum compromisso com a verdade de fato, mas sim em agradar o biografado. Além do que seria impossível publicar biografias de criminosos, políticos ou malfeitores em geral, já que, se vivos não autorizariam ter seus crimes expostos e, se mortos, dificilmente teriam os direitos liberados pela família.

Vejo argumentos toscos dos dois lados da discussão, como por exemplo, quando Djavan cita numa coluna para um grande jornal que os biógrafos fazem fortuna com os livros. Onde Djavan pensa que está? Esqueceu que no Brasil a leitura é um hábito escasso. Além do mais o mesmo cantor se atrapalha na coluna ao dizer que para o biografado seria necessário haver uma remuneração, ou seja, não basta o autor ganhar uma miséria pela venda dos livros ainda tem que dividir os lucros com o biografado que não colaborou em nada com a pesquisa e publicação do livro. Absurdo.

Mário Magalhães - biógrafo de Marighella
Vi também jornalistas misturando as coisas, atacando a figura pessoal dos artistas e mesmo suas carreiras. O movimento é uma coisa, os artistas são outra. Alguns jornalistas dizem que quando se é uma figura pública não se pode exigir direito à privacidade de sua história. Será que não? Precisamos lembrar que por trás da figura pública há um individuo como qualquer outro. Até porque uma publicação caluniosa pode sim ser processada, mas sabe-se que nossa justiça é morosa e uma vez que o livro vai pras prateleiras é difícil reparar o estrago.

É realmente complexo achar um meio termo nessa discussão, por isso acho o debate saudável, li um relato do jornalista Mário Magalhães, blogueiros do Uol e escritor da biografia de Carlos Marighella, em que ele descreve detalhadamente os pormenores e perrengues para se escrever uma biografia no Brasil e realmente é uma tarefa árdua, pra poucos. Com mais empecilhos, realmente se tornará cada vez mais difícil bons escritores se interessarem em fazer uma biografia de um personagem marcante da nossa história, seja no âmbito musical, da literatura, do cinema, do crime ou do cotidiano de um modo geral.

Creio que a limitação ao crivo do biografado como regra geral não seja a solução para evitar calúnia e difamações, mas sim métodos rápidos e eficazes impostos pela justiça como punição a escritores mal intencionados.

Já basta a ignorância em que vivemos, não precisamos da volta da censura pra dizer o que devemos ou não ler e assistir.


David Oaski